LUZ DA NOITE – a criação de Nádia Duvall

EXPOSIÇÃO VISGRAAT – Texto de Maria João Fernandes

“A arte é um sonho sonhado pelo artista”

Anton Ehrenzweig

“Num lugar onde a sombra é gémea

do fogo irrevelado”

Herberto Helder

Em muitos anos da minha já longa carreira de crítica de arte, na minha visitação de algumas capitais da arte do mundo, Nova Iorque, Londres, Paris, Madrid, Barcelona, Atenas, Bruxelas, Amsterdão e seus grandes museus, a Ocidente, e a Oriente passando por Macau e pela China, no labirinto da minha escrita alimentada pelas correntes artísticas que marcaram o século XX e pelos seus Mestres tive a oportunidade e o privilégio de um diálogo pessoal com grandes artistas como Tàpies considerado durante a última fase da sua existência como o maior pintor vivo, António Saura, Cícero Dias, Erró e entre nós com Júlio Resende, Cargaleiro, Nadir Afonso ou Júlio Pomar, entre muitos outros. Edificando o Museu Imaginário das formas, na esteira de Malraux, das criaturas e das cores, das linhas de uma realidade alternativa ao desencanto quotidiano, a realidade imaginária, o horizonte encantado da criação. Mergulhando os abismos do inconsciente em busca das suas leis, da sua ordem secreta, escutando “as vozes do silêncio” para as transformar no caudal luminoso e numinoso da palavra.

Raras vezes neste longo périplo me deparei com a surpresa, a originalidade, a força criativa e a autenticidade pulsional do percurso da jovem Nádia Duvall. A algumas das suas referências: Yves Klein (a implicação do corpo, Rothko (misticismo e espiritualidade), Pollock (gestualidade e pulsão) e Helena Almeida (a componente mental, conceptual) eu acrescento as que de imediato me ocorreram: Tàpies, Frida Khalo. Tàpies inventou em meados dos anos 50, a escrita sobre o muro e uma nova visão da matéria e dos objetos do quotidiano. Nádia Duvall cria agora uma escrita sobre a água e nascida da água e uma matéria plástica para expressar e fixar os seus gestos, pois aquela que herdou de séculos de tradição a Ocidente não a satisfaz, não corresponde à sua necessidade de achar um equivalente dos seus subterrâneos impulsos e luminosas gestações. Nenhuma tinta saída do tubo, nenhum lápis fabricado lhe serve ou basta, simplesmente porque aquilo que persegue, as suas obsessões mais antigas sem equivalente no mundo visível e sensível aguardam para vir à tona da consciência, a conjunção alquímica do espírito, o seu, o do mundo e o de uma matéria que ainda não existe. Que vai depender de uma celebração e de uma gestação envolvendo a luz, o espaço, as sombras, o seu corpo, uma pele de tinta que ela própria foi produzindo ao longo dos anos, a magia das cores, os seus véus, o seu mistério. E a água, mater e magister de uma “obra ao negro”, de uma alquimia com diversas fases, da qual adivinhamos a calcinação, a destruição das diferenças, uma negritude que é a da noite da alma e a da noite do mundo, a solução na água purificadora e uma nova solidificação (rubedo), fase da transformação da matéria, trazendo consigo a união dos opostos, “a  coexistência pacífica dos contrários” e enfim aquela que se anuncia, em marcha ocultamente, da sublimação, “que corresponde ao ouro, cor do sol, plenitude do ser, calor e luz.” (1)

A filósofa poeta espanhola María Zambrano descreve a alquimia como “o afã  de transmutar a matéria inerte ou de extrair o princípio puro e ativo nela sepultado, participando humanamente da criação” (2). A analogia com um processo alquímico está implícita na arte de Nádia Duvall, na transformação sofrida no processo de criação de uma matéria nova, a partir da dissolução e da solidificação com a mediação da água e seu simbolismo. Água ambivalente, impura e pura de que “umas gotas bastam para purificar um mundo”, nas palavras de Gaston Bachelard citado por Gilbert Durand que a define como “grande e arquetipal imagem psicológica” (3). Água genitrix, equivalente do mar cósmico original onde dormem todas as potencialidades da vida, água profunda do inconsciente na sua demanda de mais luz e de uma alegria que é o secreto halo do Paraíso. Essa fusão primeira no seio de uma unidade e de uma luz intactas, a água a esconde e a guarda preciosamente. Mistério insondável do espírito, da sua origem e justificação. Foram precisos muitos séculos e muitas eras de uma evolução caudalosa, desde o primeiro gesto de Lascaux, passando pelo misticismo medieval, pela grande ambição clássica de imitar a ordem e o equilíbrio da natureza, pelo culto do mistério e do inacessível do Maneirismo, pelo esplendor em turbilhão do Barroco, pela deambulação onírica do Romantismo e do Simbolismo, pela convulsa apropriação da realidade plástica e da própria realidade, exterior e interior, do século XX, na sua progressiva conquista da liberdade de expressão. Foi preciso passar pela ousadia de Breton ao invocar os abismos do espírito humano, e pela de Duchamp, ao reivindicar o poder do acaso e do objeto achado, o poder criativo da própria realidade, foram necessários o gesto explosivo de Pollock, a depuração da realidade na abstração e a sua negação na explosão de figurações e de novas figurações, a arte bruta dos loucos e dos alienados, foi necessário este labirinto milenar com as suas perdas e revelações.

Hoje ergue-se com fulgor, uma nova linguagem plástica que tudo nega e tudo reinventa a partir da matéria-prima da água, como se se tratasse da primeira manhã. Reivindicando o poder da criação do espírito faz aparentemente tábua rasa de tudo o que precedeu esta aventura, mas que é o húmus que permitiu a sua floração.

Nádia Duvall com a sua experiência de sofrimento, os seus diários de esquissos e retratos, os seus perturbadores heterónimos, a sua biografia invulgar, é irmã de Frida Khalo, não apenas por isso, mas sobretudo porque foi capaz de criar uma arte no feminino que é a expressão mais profunda desse mesmo feminino, do seu poder de dar à luz, de arrancar às trevas o sono da matéria transformando-a na exaltante aventura do espírito.

Evocando no seu trabalho a série dos “vernizes” de Tàpies integrada na exposição que comissariei em 1991 na Fundação de Serralves e na Fundação Gulbenkian ou Frida Khalo, a artista é sobretudo ela mesma, no seu jovem afã de criar uma realidade à sua imagem, visto que todas as suas obras são uma espécie de auto-retratos, mas estas imagens não são mais do que emanações secretas da interioridade humana, a celebração de uma ferida, de uma cisão cuja unidade se pretende secretamente refazer.

A delgada película de tinta no contacto com a água (de uma piscina que colocou no seu atelier e que considera o verdadeiro “útero”na origem da gestação das suas obras), ganha matizes e sombras para se fixar sobre o vidro, seu suporte, onde posteriormente se integram as formas duras e invasoras. A artista por meias palavras ou meias frases, como se a discursividade fosse perigosamente equívoca, fala no “desejo”, desejo de unir o consciente e o inconsciente separados por essa transparente parede de uma matéria arrancada ao nada. Metáfora da pele de um corpo presente e ausente, insustentável leveza que apela ao devir da consciência.

O seu próprio corpo está envolvido neste processo, na manipulação dos materiais, complexa e árdua, na relação com a água que permite fixar as imagens “infixáveis”. E presente também como fonte de todas as metáforas, como um casulo de sombras que aguardasse o voo da mariposa dos sonhos. Corpo de dor, de incisões, atravessado por formas que rasgam a sua inocência, a sua lisura, a sua beleza. Formas esculpidas intimamente azuis que transformam estas peças em pinturas/objeto num sábio jogo de opacidades e de transparências com veios e delicadas nuances de cor, aberturas e rasgões, marcas na “pele” que se estende e vibra sobre o suporte do vidro nele acordando a vida. Uma vida segunda, inusitada e palpável carícia dos sentidos da alma, um olhar para dentro vindo da noite secreta do espírito, um escutar das sombras, um pressentir do azul onírico do sonho, “centelha divina enterrada na escuridão” (4), índice da luz mais oculta, perfume da ausência que precede o esplendor.

“Visgraat” (espinha de peixe), é o título desta série. Nádia Duvall achou numa língua estranha à sua, o holandês, os sons ásperos que correspondem à sua expressão da dor, à sua procura de uma matéria para o sofrimento e a perplexidade. Espinha de peixe, coluna vertebral, invasora, sempre com uma posição central e vertical, espécie de eixo fundador deste noturno universo. No plano do mito o eixo do mundo, “axis mundi”, dá um sentido ao espaço permitindo a relação com o Sagrado (5). Não por acaso a artista descobriu no reino marítimo esta soberba metáfora que lhe foi ditada pelas leis ocultas da gramática do inconsciente, nas suas estruturas mais profundas estudadas por Ehrenzweig (6). Neste espaço noturno e aparentemente caótico, a espinha de peixe é não o anti “axis mundi”, como poderia parecer à primeira vista, mas o eixo cósmico, a verdadeira coluna vertebral do oceano onírico e profundo dos sonhos. Eixo que simbolicamente, ligando o humano à natureza, lhe garante a não submersão no Caos da consciência que perdeu a chave do conhecimento simbólico e salvífico de que nos nossos dias, a arte, para além da religião, é a única depositária. Este eixo poderoso e comovente, no enigma e no acaso do seu nascimento e da sua forma, contém uma proposta da própria natureza, de decifração do sentido da trajetória humana, de que ela possui a chave, só transmissível no silêncio ou na música e na poesia latentes nestas criações.

Grandes criações, emanações, do inconsciente, do corpo, do corpo do inconsciente, do inconsciente do corpo. E criação de um novo corpo, inconsciente feito matéria, matéria imaterial, pura evanescência, dealbar amoroso do espírito que deseja a sua metade, na consciência de uma fusão anunciada do conhecimento, índice de uma demanda que é a de todo o Ocidente, “partilhado entre um pólo extático-inspirado e um pólo racional-consciente” (7) . Para nos deixar fruir o brilho destas imagens perturbadoras, nascidas do limbo de todos os desejos.

Da penumbra regressam as sombras de um lugar nunca visto e nunca sentido antes da alquímica e amorosa fusão de sonhos, matérias e de um fogo oculto nos subterrâneos da água. Membranas caprichosas, véus de anjos caídos de um paraíso em migração rumo aos infinitos devaneios da noite.

De um lago, ou de um oceano de vibrações ténues, tão ténues como o silêncio, mas um silêncio frágil e iluminado pelos sons de um piano tocando em surdina, rumorejando a violência de um sofrimento antigo e que sobe pelas veias, ascende ao sangue e se transforma num vulcão lânguido, a espraiar-se nos veios da água, asas de borboletas nascidas do vento e dos suspiros da música. Asas, crescendo, crescentes de luas submersas, rasgando as trevas na audácia de colunas, não de templos, mas de um tempo só interior, anterior à luz e que a anuncia. Como uma aurora prometida, azul murmúrio entre escombros, como se tudo fosse possível ainda, na leve fimbria transparente de um manto sem nome, substância alada de uma cortina que esconde e revela o absoluto ou o nada.

De mistério em mistério, de camada em camada, de sombra em sonho, a luz da melancolia acende as trevas em cintilações obscuras, como suspiros ou gritos. Retratos, pura alquimia interior, no casamento da cor, da forma e de superfícies mínimas ou grandiosas, retratos sobre o vidro, frágeis e densos, feridas, labirintos mágicos, íntimos fogos crepitando sussurros, mágoas e maravilhas, da noite, da ausência, labirintos como cabelos de uma árvore que cresceu para dentro das entranhas da terra, os seus fios balbuciando as palavras de um alfabeto sem equivalente algum.

Ouro, espasmos no vazio, lilases, flores da ausência e uma púrpura aurora boreal da alma.

A alma revelando a sua sombra, a sua luz magicamente oculta nos véus dos passos que se perderam há muito em florestas virgens e inexploradas. Florestas do nosso descontentamento, de uma civilização que negou a sua véspera de água.

Da escuridão, do elo com a música, do silêncio rasgado pelos relâmpagos da noite ancestral, navegam estas asas, estas membranas violentadas pelo sofrimento e a mágoa de estar vivo. Navegam ao vento do espaço sideral, onde os cometas somos nós, flores sem jardim. Novo espaço, nova matéria, nova linguagem para uma nova expressão do humano. Nenhum psicologismo consegue explicar este percurso, feito à escala de um meio maior do que o nosso. Trata-se de reinventar o humano, uma vez mais, de esboçar uma nova trajetória, a partir do sofrimento que nascer sempre implica, marca de todo o grande artista, como Roland Penrose escreveu a propósito de Tàpies. Um humano em sintonia com o Cosmos, nascido do ventre das metáforas da água, em migração para outros territórios do espírito em eclipse, promessa do ouro, de um sol, seu verdadeiro destino.

  1. Chevalier, Jean e Gheerbrant, Alain,  «Alchimie », Dictionnaire des Symboles, Édition Seghers, Paris, 1971, p. 36.
  2. Zambrano, María, O Sonho Criador, Editora Assírio&Alvim, Lisboa, 2006, p. 46.
  3. Bachelard, Gaston, citado por Durand, Gilbert, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, Édition Bordas, Paris, 1973, p.194.
  4. Jung, Carl, Gustav, « A Luz da Escuridão », Estudos Alquímicos, Editora Vozes, Petrópolis, 2003, p. 162.
  5. Eliade, Mircea, O Sagrado e o Profano, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p.50.
  6. Ehrenzweig, Anton, L’Ordre Caché de l’Art, Éditions Gallimard, Paris, 1974.
  7. Agamben, Giorgio, Stanze, Éditions Payot&Rivages, Poche, Paris 1998, p.10.
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