ABALO

exposição ABALO – texto por Manuel Furtado dos Santos (artista e galerista da MUTE)

          Nádia Duvall é um vislumbre de um futuro com que poucos se atrevem a sonhar. A sua vida representa inevitavelmente a vitória absoluta face aos nossos piores medos. Atrevo-me a dizer isto porque há pouco mais de 30 anos a artista viveu na pele o que centenas de milhares vivem hoje quando tentam chegar à Europa como refugiados, vindos de uma África à qual toda a esperança já foi roubada há muito. Nesta exposição assim como em toda a sua obra (e dos seus 9 heterónimos) encontramos um corpo de trabalho verdadeiramente autobiográfico que se prende com acontecimentos da primeira infância envoltos na neblina do esquecimento mas cheios de afectos, autenticidade e relevância.

          Acho essencial pelo menos referir alguns eventos que são explorados nesta exposição: a prisão do pai biológico e as portas que o afastaram das suas filhas, a sua radicalização religiosa, a fuga de Nádia com a sua mãe da Argélia para Espanha e depois para Portugal, a morte da sua mãe passados poucos anos como consequência dessa fuga… Ainda assim, com o investimento afectivo da sua família adoptiva, conseguiu estudar Arte Plásticas nas Caldas da Rainha, fez o mestrado em Pintura nas Belas Artes em Lisboa e ganhou múltiplos prémios e um protagonismo que me parece ainda claramente insignificante quando comparado com o que deverá vir a ter.

          Nádia encontra-se na ligação entre o interior e o exterior, entre o seu passado e o nosso futuro, entre o Eu e o Outro, o inconsciente e o desconhecido. Nestas coordenadas, inscritas numa rosa-dos-­ventos com que deparamos nesta exposição, encontramos a pele (de tinta) como um interface outrora numa piscina, a que a artista chama “útero”, que enrijece e se torna obra… Uma tela que passa ser um chiffon transparente, poroso e que permite a respiração cutânea da luz e do olhar… Uma grade de tela que é um “esqueleto” e a fonte de toda a atmosfera emocional que define a aura desta exposição. Fica portanto uma artista e uma exposição “sem fronteiras” como está escrito em árabe no chão da galeria. Entre portas e importada como mercadoria, ou como está num trabalho: “Emportada”. Encarnada de carne e não só pela sua carga política. Perda… Encontro… É por tudo isto e muito mais que no futuro um pequeno documentário será inevitável para que se consiga ver o futuro de tantos através desta vida intensa que a artista encarna.

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